Cartas para o sul
Aos poucos as cartas chegam..
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Dona Bia
Tem uns dias, minha vó caiu, a gente foi ver e ela trincou o fêmur, a historia tem coisas engraçadas (do meu lado logicamente, ela estava sentindo dor pra caralho), eu brigando com ela pra ela não se mover e conseguir chamar os bombeiros, segurando a perna dela por horas, indo na ambulância e vendo ela gritar de dor e tudo mais..
Foi difícil entrar de novo lá na Grande Emergência, fiquei estático na porta, mas muita coisa mesmo mudou depois daquilo...mudou pra melhor até, e de certa forma, tenho de ser grato aquele lugar..Voltei lá pra falar com a minha avó, fiquei conversando um bom tempo com ela, e a enfermaria lotada como sempre
vi uma senhora do lado chorando muito...ae vieram um neto, uma argentina e ficaram falando com ela, mas pelo visto ele foi lá a primeira vez nas 2 semanas que ela tava lá e é meio chato tu não arrumar tempo pra sua avó..
E é aqui que entra a Dona Bia! Ela partiu o fêmur caindo em casa, e precisava aguardar a operação, nesse meio tempo ela ficou com acompanhantes e tudo mais..Vi o nome no prontuário dela "beatriz" ae minha avó contou a história dela e disse que chamavam ela de Dona Bia!
Boa Parte do que mudou de quando eu entrei lá na emergência e saí depois..é que eu to mais feliz! e gosto de passar isso pros outros, fiquei chateado de ver a bia chorando e fui falar com ela "Ô Dona Bia! Chora não que se ficar triste é mais difícil de sair daqui! já vai perder o carnaval desse ano, ano que vem tem que ir lá pular!" Ela me olhou, ficou olhando e tentando entender porque eu falei com ela, como ela mesmo ficou falando, ela era só uma velha inútil..ae dei a mão pra ela, falei meu nome, que era neto da vizinha de maca dela e fiquei lá sem fazer nada! Mas ela ficou encantada comigo, falou que eu era bonitão HAHAHAHA, e que eu tava certo, não tinha que chorar, nas das outras vezes que eu consegui invadir a enfermaria dela e dar uma olhada nela, ela não chorou mais, ficou feliz mesmo e quando eu aparecia ela sempre falava "mas como é que pode, tava pensando aqui agora no seu sorriso, ele acompanha a barba e ae quando eu penso nisso você aparece aqui!" e me apresentava pra todo mundo como o neto que Deus deu pra ela!
Acho que só vi a Bia duas, talvez três vezes! Mas fiquei feliz que consegui cativar alguém e que de certa forma, ela me cativou também! E que isso só fez bem pra ela..
Mesmo que não encontre mais com ela, serei sempre o neto que Deus deu pra ela e torço que tudo fique bem com ela =)
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Não tirei o tênis, não queria fazer parte daquele lugar
Me deitaram, o colchão estava úmido, logo me espetaram de um lado, observei enquanto caíram algumas gotas de sangue, me conectaram ao soro...logo vem do outro lado e tiram sangue, mais 3 ampolas, meus braços já haviam levado mais de 30 picadas nesses dias, vários hematomas de veias estouradas pelos braços e mãos..o enfermeiro perguntou "conhece o garage? eu era de uma gangue de lá, meu nome é wall" um rosto novo pra se conhecer, acabei de dar entrada na grande emergência do lourenço jorge (que nem é tão grande assim, não que eu tenha estado em muitas delas, mas aquela ali me pareceu normal) fiquei deitado ali esperando ir pro meu lugar..me sentia bem, mas mal ao mesmo tempo, queria ir pra casa, descansar, tomar meu banho. Mas não podia, maldita dengue, malditas 11 mil plaquetas, pra que ficarem tão baixas?
O Wall me levou pro meu lugar, era o corredor, mas fazer o que..logo percebi que a água do colchão tava mofada ou era água sanitária, ou mijo, sei que o cheiro ficou na minha roupa e na minha pele, trocaram depois o colchão, mas eu tive que deitar com a roupa no novo e ficou fedendo igual, não liguei, não tirei o tênis, sempre tiro o tênis quando quero fazer parte de algum lugar, mas se não, eu deito com ele e fico com ele até a hora de ir embora, o que foi o caso..Uma amiga me ligou e queria ir me visitar, pediu pra eu ficar bem e eu falei pra ela perguntar pra minha Namorada como era o esquema. Fiquei feliz dela ter me ligado, há anos digo que ela é parte da minha família, e há anos ela tem demostrado exatamente isso!
Logo vem a janta, carne moída, beterraba, arroz e feijão, um suco de limão e uma água..comida de hospital, tipicamente sem sal, gordura ou amor, mas o pior era a água, eram 3 por refeição e tinham gosto, um gosto de plástico ou de água que fica na garrafa em baixo da cama por dias. Deitei, o cheiro me enjoava, mas consegui achar um lugar que tivesse um cheiro bom, minha tia me deu um travesseiro (que aliais foi o que salvou o cheiro e me fez dormir, não no primeiro dia). perguntei pro Wall onde era o banheiro e qual o esquema de ir ao banheiro e ganhei um lençol...
Logo eu tava lá, sorri pra algumas pessoas pra fazer amizade e não ficar no isolamento e sem falar..ae logo escuto "no primeiro dia ninguém dorme" não sei quem falou isso, mas era a maior certeza que eu já escutei na vida. Deitei, de tênis, com a minha roupa suja e fiquei lá, não tinha onde colocar os óculos, fiquei com ele na cara e tentei dormir. Deitava pra um lado, tinha a luz do balcão das enfermeiras, no outro tinha o cheiro ruim, tentava por o braço por cima e tinha o acesso do soro ainda dolorido. Quando caia no sono, o telefone tocava e ninguém atendia, ou alguém passava de maca e batia na minha maca e eu acordava, ou eu quase caia da maca dormindo, o que acontece bastante por lá e faz a galera ficar por mais tempo por causa de fraturas e tudo mais.
Não consegui dormir, tinham uns 3 caras loucos que gritavam a noite toda, e uma mulher que gritava como se tivessem esquartejando ela.. Um..o tal de Nilson, vai ganhar um parágrafo só pra ele. O cara do meu lado, não lembro o nome, lembro que tinha um SJO tatuado nos dedos, e era o nome dele, acho que era sebastião..não sei o que tinha, sei que não comia sozinho, se cagou tensamente e gritava duas coisas, "ô enfermeiro!" muito alto e do nada ele acordava de noite e gritava "AI AI AI, dá um remédio pra dor ae ô boa gente". A mulher só gritava, mas parecia com um papagaio que tinha aqui nos fundos, então nem me incomodei, logo depois a gente discutiu sobre ser uma mulher ou uma criança, mas não tinham muitas crianças por lá...só vi 2 menores. Tinha outro que eu não vi, mas gritava "padre! me tira daqui padre! tão me queimando padre!"
O Nilson foi o meu grande desafio, nunca vi uma pessoa repetir tanto alguma coisa, ele embalava e ficava gritando o nome de um monte de gente, ae ele gritava assim sempre "benedita! benedita! nedita! nedita! dita! dita! ta! ta! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA" com todos os nomes, coisas, e palavras que dava e as vezes o cara gritava coisas evangélicas e do nada ficava chamando lúcifer..ele era louco, tava de alta há 4 dias e não ia pra casa, dava o dinheiro, ele saia e apanhava e voltava...já nem tinha mais roupa..tava amarrado, mas arrancava as amarras com os dentes, saia e ia tomar banho..na sexta, a mulher dele veio visitar ele, ae ele chamou o enfermeiro do segundo dia, ae falou pra ele "Cara, essa aqui é a minha mulher" e o enfermeiro falou "po, legal o casal tá unido nesses tempos ruins e tudo mais" ae ele olhou pra cara dele, e falou "tu tá comendo a minha mulher?" e ficou louco de ódio..acabou o horário das visitas e a minha namorada apareceu do nada! Fiquei muito feliz de ver o rosto de alguém conhecido e poder guardar ele na minha memória pra pensar mais tarde..logo depois que o guarda levou a levou, o Nilson fugiu e foi pro banheiro, quando chegou lá ficou lavando o banheiro.. o enfermeiro foi catar ele, quando ele viu o rosto dele, lembrou do caso da mulher, arrancou o vaso sanitário do chão e tacou nele...só deu tempo do enfermeiro fechar a porta e chamar TODOS os seguranças do hospital, ele ficou lá dentro catou um caco de porcelana e tentou cortar o cara, veio um PM armado e ele tentou cortar o PM, ae o PM saiu, ele começou a se cortar, cortou a língua e ficou cuspindo sangue na cara dos outros..ae o PM voltou com um porrete gigante e bateu 6 vezes na cabeça do cara, ele não caiu...o médico aplicou um sedativo nele e ele apagou por umas horas, ae depois começou a gritar de novo, se debater e virou a maca e ficou horas com a cara no chão..e ainda assim gritando..mas ele se foi na sexta mesmo, junto com o cara do SJO.
De quinta pra sexta eu soube que o meu exame de sangue não tava por lá..mas a Drª fez o requerimento logo cedo, e eu tratei de fazer um tipo de "leve 2 por 1", tinha um cara, que tava com dengue também, a mãe dele era muito gente boa e eu vi que precisava ajudar o carinha lá também, até porque ele tinha os sintomas eu não tinha nada de mais, só tava tonto..decidi ajudar ele. Depois que serviram o almoço eu falei com uma enfermeira "ei meu bem, sabe que horas que eles colhem sangue aqui? to esperando desde as 9 e nada" e ela ficou puta, reclamou que os caras do laboratório são babacas e que nunca vão lá..ela pegou 3 ampolas e mandou outra enfermeira achar o requerimento que ela ia levar pro laboratório. Aí eu já falei "olha, ele tá com dengue também e precisa fazer um exame de sangue também" ela logo pediu o requerimento dele também e tirou o sangue e foi embora, já eram quase 18 hrs. Quando deu 22hrs vieram colher os exames, mais de 12 hrs depois do requerimento..liguei pra minha mãe e falei pra ir na ouvidoria e abrir um processo contra o laboratório por isso, ela fez isso..passei a sexta de boa, mas quando soube que as plaquetas tavam em 24 mil, comecei a chorar, não aguentava mais um dia naquele inferno, senti falta de ar, entrei em pânico..assim como fiz na quinta quando fiquei lá. mas infelizmente não tinha o que fazer..tinha alguns vizinhos novos, tentei me apresentar, um senhor de idade na minha diagonal, junto com a maca, um senhor vindo do trauma na minha frente e atrás de mim um cara com uma aparência de mendigo..
Desmaiei, não sei se foi o sono, ou as plaquetas baixas, ou a vontade de estar em um lugar melhor...sei que apaguei. Acordei as 4 da manhã com alguém gritando, já tinha me acostumado com os gritos, fui tomar meu banho (que diga-se de passagem, foi o banho MAIS frio da minha vida!) fiz minhas necessidades e fiquei sentado organizando as coisas. Vi que havia sentado, ou deitado, em cima dos meus óculos e logo tratei de por as lentes no lugar, arrumei o meu saquinho de coisas e nunca senti tanta falta da minha escova de dentes e outras coisas bobas, tipo a luz do sol, comida temperada e outras coisas, não é tão impossivel, mas só o corpo tava doente, minha cabeça tinha certeza que tinha de estar em outro lugar e esse pensamento me faz entrar em desespero, um loop infinito da mesma ideia se realimentando e fazendo mal, mas ae escuto um simpático "bom dia! tá melhor?" olho pro lado, dentro do balcão da enfermaria e vejo a Drª com um sorriso grande e meio tímido, daqueles que só mostram metades dos incisivos e os caninos só o dentista dela viu, ela logo pergunta dos meus exames e eu falei os resultados e ela veio e sentou do meu lado pra conversar.
Comecei a negociar! Falei sobre a demora dos exames de sangue, e se eu não podia sair e fazer em outro lugar, mesmo no polo da dengue do lado de fora, ficava pronto em 10 min, conversa vai e conversa vem e ela fala a frase mágica "alta à rebelia". Não sabia que existia isso, eu podia sair de lá a hora que eu quisesse, só levantar e ir, não tirariam o acesso (o que aliais, não lembro se escrevi, até porque eu não consegui escrever tudo em um dia e já esqueci muitas coisas e detalhes, mas meteram uma agulha de 1,8mm de diâmetro no meu braço! é a largura do meu piercing da boca!) mas ae comecei a negociar falando que eu saia, e levava comigo o amigo com dengue, a gente fazia o exame e voltava. Era uma ideia fixa minha, ela mesma acho uma boa ideia e tentou negociar...e conseguiu! 2 requerimentos de exame (fui um cara legal, pedi o do amigo, ou eram os 2 ou a gente saia), uma enfermeira pra tirar o sangue e isso antes das 9 da manhã! Ae veio uma enfermeira pra ele e uma médica pra mim, a enfermeira era boa de tirar sangue e a médica tinha dó de machucar as pessoas, quando ela viu meus braços cheios de hematomas ela perdeu a coragem, ela furava com dó e não conseguia, SEIS furos até a outra enfermeira vir tirar! Aliais, achei ela no facebook e mandei uma mensagem escrito "6x0 ;)" mas ae era só esperar, 3 hrs no máximo tava pronto..conversei com o pai do amigo em como ele deveria agir e com ele pra ele ficar mais calmo..se não ele não sairia de lá, e até hoje não saiu..
No final de um parágrafo, falei dos novos vizinhos e um chegou pior do que o Nilson, o que me fez entrar em total desespero! O senhor que parecia um mendigo fedia, mas não era cheiro de mendigo, era um cheiro que eu nunca havia sentido e não tem como descrever! o ar que subia chegava a ser quente e o pior, era dele, ele tinha câncer de faringe, quando deitaram ele, eu consegui ver um machucado no pescoço muito grande e feio..A secreção que sai dele é a coisa mais fedida que eu já cheirei e ia piorando! Ninguém conseguia comer ou respirar! Peguei o sabonete, esfreguei na camisa e fiquei lá esperando, deu 13Hrs, já tinha almoçado e tava sentado de pernas cruzadas em cima da maca (só dá pra sentar assim porque se não alguém passe de maca ou cadeira ou lixeira e machuca os seus pés e pernas) ae eu vejo a Dra vindo e com o sorriso tímido me fala "98 mil plaquetas! não precisa fugir não, vou assinar a sua alta" pena que o amigo não saiu, tava com 14 mil ainda, mais uns 3 dias e ele sairia. Nisso, olhei pro lado e vi os técnicos do lab vindo colher sangue! as 13 da tarde (acho que isso foi o que me deixou mais feliz, se ninguém ameaçar processar, eles não vão lá tirar sangue! Consegui adiantar a colheta das 22 pras 13, assim muita gente consegue comer, porque se for ficar de jejum pra fazer exame e só vem de noite, a pessoa fica DOIS DIAS SEM COMER! e também por que não dão alta de noite, fazendo uma galera ficar um dia a mais do que deveria. Fiquei feliz de ter feito algo por TODOS os pacientes, enfermeiras e médicos daquele lugar).
Pedi ajuda pra trocar de roupa, me desconectaram do soro, vesti a minha camisa e uma enfermeira me deu o sonhado papel de alta, alguns exames e falou pra eu ir lá atrás tirar o acesso. Imagina, 3 dias, um esparadrapo por metade do seu braço, sendo puxado com todos os seus pelos de UMA SÓ VEZ! Doeu, como doeu, mas eu tava feliz por ir embora. Disse tchau pra todo mundo, desejei melhoras à todos, disse pro cara que não dormia pra ele continuar rezando, porque ele era um puta guerreiro e logo ia tá na casa dele com a mulher e os filhos dele, deu um abraço no roberto e fui, com meu saquinho numa mão e meu travesseiro em outra, saí, liguei pra minha namorada e pro meu irmão pra avisar que tinha saído, tentei ligar pra minha amiga, mas o cel que ela me ligou não era dela..
Nunca havia pensado tanto nas coisas, no que eu queria, no que eu gostava, nas pessoas há minha volta, quem eu já nem lembrava, quem havia marcado muito e quem saiu sem eu nem perceber. Pensei muito, fiquei feliz, fiquei triste, entrei em pânico e demostrei controlar tudo isso, foi ruim, mas fez bem.
Não sei porque, mas fiquei 3 dias achando que eu não tinha saído, só estava deitado e sonhando que estava fora, as vezes escutava gritos ou sentia os cheiros ou até a luz que incomodava..Deve ser normal, foi um trauma grande, mas aprendi a valorizar certas coisas e sei que quando cheguei em casa, tomei o melhor banho e comi o MELHOR strogonoff da minha vida! Mais uns 3 exames e eu fico de boa! Se lembrar de algo eu atualizo aqui!
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Covinhas
Covinha é uma marca na pele que aparece normalmente no queixo e nas bochechas de uma pessoa especialmente quando sorri. Covinhas são formadas por fibras que se ligam em certos pontos mais superficiais da pele e a puxam para dentro como o movimento dos músculos. São geralmente hereditárias como traço dominante mas podem surgir de acidentes, cirurgias ou infecções cutâneas como a acne.
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